terça-feira, 6 de março de 2007

Sensibilidades

Na sociedade actual, em particular nas cidades cosmopolitas, privilegia-se e quase endeusa-se o egoísmo, o narcisismo, o desrespeito pelos que nos rodeiam, o que torna a relação fria e distante com o Mundo à nossa volta.

Eu sei que é um pouco exagerado, mas se por um acaso num transporte público ou num espaço onde estranhos se cruzem, é quase um crime passível de 10 anos de cadeia e flagelação pública, se um determinado indivíduo tem uma atitude mais compreensiva, afectuosa, simpática para com um outro que não conhece. Se for do sexo oposto, então enfrenta no mínimo pena de prisão por assédio sexual! Quantas vezes já lhe deu aquela vontade de rir quando aquele estranho à sua frente passa por aquela peripécia ou faz um comentário mais divertido? No entanto, assim que pensa no assunto, imagina logo que o outro se possa virar para si e no mínimo levar com um semblante carregado e meia dúzia de impropérios! Isso desmotiva qualquer um a sorrir, algo que nos faz tão bem!

Por isso e por tantas outras razões é que cada vez mais temos uma sociedade triste e egoísta, que não era de todo a matriz de pensamento do povo português, conhecido por ser um dos povos mais alegres e acolhedores da Europa. Este modus vivendi também se reflecte na forma como nos relacionamos com os que nos estão mais próximos, quer seja família, amigos ou colegas de profissão.

Os laços que nos unem a amigos e família deveriam ser os mais fortes, onde é maior a solidariedade, a capacidade de perdoar e compreender, de ajudar a construir um Mundo um pouco melhor pelo menos no seu universo mais privado. No entanto, cada vez mais se sente a volatilidade das relações, os amigos que eram tão amigos mas à primeira dificuldade afastam-se, zangam-se e tornam-se quase os piores inimigos; os familiares que estão mais interessados em obter proveitos financeiros do parentesco; os filhos que cada vez menos se revêem nos pais, tentando a todo o custo se afastarem deles e da sua matriz de pensamento e valores.

Ora se na sua esfera mais pessoal, os valores já estão assim tão degradados, o que impede de extravasar isso para a esfera profissional ou da vida pública? O condutor que no trânsito comporta-se como apenas ele estivesse na estrada, o executivo que espezinha todos os que o rodeiam para conseguir aquele objectivo ou prémio adicional.

A minha visão do mundo, os valores que me foram incutidos são diferentes, e juntando isso a uma grande dose de timidez, leva a que me sinta desajustado em ambientes ultra-competitivos ou em que haja uma grande crispação entre os que me rodeiam, ou onde haja uma luta de poder.
Talvez por isso tenha uma tendência natural para me relacionar melhor com aqueles que se identificam com os meus valores, e ter prazer em sentir que há contributo mutuo para que a vida louca que todos levamos na grande cidade seja um pouco menos intolerável, em que se sinta ali um porto de abrigo para um desabafo, uma confissão, uma piada ou até uma qualquer inocente coscuvilhice.

No entanto, mesmo nos que nos são mais próximos, há que jogar com as sensibilidades de cada um, o que obriga a ter cautelas para não causar incómodo ou desconforto no outro. A natureza humana é tão rica em cambiantes, que por vezes obriga a uma ginástica mental e social que não deveria acontecer se vivêssemos numa sociedade mais humanizada e calorosa.

Quem não passou já por situações em que teve de deixar de conviver com um familiar, amigo ou colega, porque outro que também nos é próximo tem uma má relação ou incompatibilidade com o primeiro? Aquela situação desconfortável de querer convidar um para um almoço ou tomar uma bebida ou partilhar um qualquer momento mais marcante, mas não pode porque o outro vai ficar constrangido ou amuado? Se eu tenho que respeitar as divergências entre eles, porque é que eles não podem respeitar a amizade que tenho pelos dois? Ah, claro, não podemos ferir as sensibilidades de cada um. E a minha sensibilidade, quem a respeita? Não tenho o direito de privar com 2 pessoas que estimo num mesmo local ou ocasião? Não tenho o direito de pelo menos sonhar que ambas vão ultrapassar as suas diferenças e finalmente descobrirem o que as une em vez do que as separa? Se eu sou capaz de apreciar isso, então provavelmente há apenas um deficit de compreensão pelas diferenças um do outro.

Como diria o outro, "se todos gostassem de uma só cor, o mundo seria amarelo"! É nesta diversidade que reside a beleza do mundo em que vivemos, e que as grandes cidades potenciam ao máximo, quer pelas migrações de pessoas com as suas diferentes origens e extractos socio-culturais, quer pelo ritmo alucinante de vida em que ninguém consegue sequer ter tempo para alinhar as suas ideias, valores e expectativas de vida com ninguém.

Não quero viver rodeado de clones meus, mas quero poder conviver com diferentes sensibilidades, experiências de vida (ou falta de experiência), que contribuem todas em conjunto para crescer todos os dias como uma pessoa melhor, e tentar dentro do possível expurgar as más vibrações que todos nós também transmitimos.

Olhe à sua volta e pergunte-se a si própria se aquele familiar, amigo, colega ou até um estranho com quem você se pegou na semana passada, no fundo não tem um ângulo que merece a pena explorar? Afinal naquele dia, ele estava irritado porque lhe tinham roubado a carteira ou tinha tido um acidente na família (mas você não sabia, não quis saber ou nem poderia saber...). A vida é curta demais para fazer inimigos... e o amor, amizade ou companheirismo é muito mais gratificante, faz bem à saúde, ao ego e ao ambiente!

Pense nisso, mas também concretize... Vai sentir-se melhor, com certeza!

1 comentário:

Tatiana Baptista disse...

Parabéns!
Que escrita fantástica!

Há muito que oiço falar muito bem de si, de alguem que nos é proximo!

Agora percebo a admiração dele por si. Parabéns, mais uma vez...

E já agora... Boa viagem e boas férias!

Tatiana Baptista