segunda-feira, 30 de outubro de 2006

O Culto da Imagem

Nas sociedades modernas, e em particular, nos meios urbanos, cada dia dá-se mais valor à imagem que cada um tenta impor aos outros. O culto da imagem é levado a um ponto em que se confunde o ser com o parecer, com a vontade de parecer algo que não é e que talvez um dia venha a ser!

No fundo, culto da imagem é quase sempre (quase!!) sinónimo de mentira, de embuste, de demonstração de um Eu que corresponde aquilo que se pensa que os outros querem que se pense de si próprio! Esta formulação é complicada, mas também o culto da imagem o é, como o são todas as mentiras que se querem tornar verdades.

Por que é que as pessoas querem parecer aquilo que não são, por que é que querem começar a enganar os outros começando pelo invólucro exterior? A verdade do ser humano está naquilo que se vê mas sobretudo naquilo que não se vê, que apenas se pressente, ou que se sente. Porém, nos dias de hoje, sentimento, verdade, honestidade são valores antiquados, fora de moda e que não se conjugam com o culto da imagem.

O culto da imagem começa por coisas tão simples, tais como a "obrigatoriedade" de um funcionário bancário andar de fato e gravata. Porquê?? Aquele invólucro torna-o mais honesto? Vai impedi-lo de enganar um cliente ou dar um desfalque no banco? Por outro lado, já viram um maltrapilho dar um desfalque? Então a imagem do fato e gravata será também um sinónimo de desonestidade? Ninguém usa esta lógica!

Mas convencionou-se esta imagem, em que o homem de negócios deve ser formal, ter uma imagem limpa e quase uniformizada. Mas por debaixo dessa imagem, escondem-se muitos homens, muitas maneiras de pensar, de viver a vida, de conviver em sociedade, muitos segredos, muitas mentiras e muitas verdades. Até porque cada um pensa por si próprio, logo será pelo menos marginalmente diferente do outro!

No caso das mulheres não há uniformidade no vestir, mas há na actuação: a grande maioria vive em diversos graus do culto da imagem, mas raramente está satisfeita com a imagem que transmite. Não pretendo nem de perto ser um crítico ou fazer uma análise psicanalítica do culto da imagem nas mulheres, apenas constatar que é um pouco diferente do dos homens e talvez mais acentuado. No entanto, nas sociedades modernas ocidentais, essa diferença é cada dia menor, e por isso se sente cada dia mais que se vive numa sociedade de mentiras.

São os ricos a parecerem mais ricos, os pobres a fingir que são ricos, os belos a mostrarem que são belos por fora e ocos por dentro, os feios a tentarem desesperadamente parecerem belos por fora, porque por dentro ninguém quer saber como são!

Muitas pessoas dizem, e incluo-me neste grupo, que "a primeira impressão sobre alguém é a que fica". Mas o interessante está em conhecermos alguém muito para além da sua imagem, desmascarar essa cortina de ilusões que tolda a visão de cada um sobre o outro. Se cada um valesse apenas pela sua imagem, teríamos um mundo quase monocromático, pois a tendência será para a uniformização dos padrões de beleza, de moda e comportamento social. Só o que está dentro dessa máquina fabulosa a que chamamos corpo humano é que trará a diferenciação, pela experiência e vivência de cada um.

Não gosto de julgar pelas aparências, mas todos temos aqueles estereótipos que não conseguimos suportar, seja pela sua intrínseca idiotice, seja pela sua inata propensão para a asneira, seja pela força bruta que emana das suas acções e que afasta quem quer que chegue perto, quer até pela santíssima e benta inocência, que ninguém acredita que possa ser verdadeira!

É do mais puro senso comum que devemos sempre defender a nossa privacidade, e para isso usamos algumas tácticas usadas no culto da imagem, mas que devem servir sobretudo para nos defendermos de quem quer se intrometer, de quem quer apenas vasculhar e chafurdar e transformar por vezes a felicidade num lodaçal imundo de meias palavras, inuendos e mal-entendidos.

Se querem um Mundo Melhor, não se façam à imagem de alguém, mostrem o que são, quem são, como são! Vão ser muito mais felizes no final do processo, quando fizerem uma introspecção sobre o valor da vossa imagem e do que ela vale para os que vos rodeiam.

No entanto, para certas pessoas, o culto da imagem é totalmente inútil, pois não conseguem sequer ver o que vêm no espelho. É uma doença bizarra, mas que acaba por ser um sinal do mundo louco em que vivemos: prosopagnosia ou "face blindness". O artigo é da WIRED.com, mas revela um universo que tenho dificuldade em assimilar, em que o doente vê as pessoas, mas não consegue identificar as feições, nem mesmo as suas próprias quando se vê ao espelho. É um mundo de imagens e de pessoas sem faces. Para estas pessoas, uma conversa deve mesmo valer mais do que mil imagens!!

Pensem nisso!!

2 comentários:

aqui disse...

Antes de chegar a esta forma que abordas aqui, encontra-se um conceito, inerente a tudo isto, na qual se questiona com alguma frequência a formação do indivíduo,este a meu ver, não deixa de ter extrema relevância nas sociedades actuais,talvez sociologia defina esta ideia com mais exactidão.

O culto da imagem é talvez uma imposição que retrai toda expressão e condiciona a liberdade individual (aquilo que o meu amigo se refere e bem; - ...um Eu que corresponde aquilo que se pensa que os outros querem que se pense de si próprio!)

O que se ganha com esta forma;não é deveras compensador, talvez seja este o problema principal do Mundo...

aqui disse...

Continuando...(Parte II)e visto que o assunto carece duma reflexão cuidada,achei a minha anterior resposta relativamente branda, na abordagem do mesmo "O Culto da Imagem".

Não deixo de pensar; que tudo tenha um princípio e razão de ser,talvez a Psicologia do Comportamento, revele a comutação entre a personalidade individual,da qual integra-se num perfil colectivo típico das sociedades modernas, esta traduz-se na teoria de instintos ou a chamada força biológica que comanda o organismo, daqui deriva todo comportamento, que é nada mais o resultado disso mesmo.
Estes resultados estão ligados ao nascimento do ser; podendo ser ajustado pela aprendizagem e experiência. Inúmeras e diversas movimentações intuitivas como o medo, a curiosidade, agressão e a reprodução, estão descritas no Livro - Social Psychology de McDougall.

À medida que crescemos, desenvolvemos atitudes sociais que influenciam o nosso comportamento, o processo em que os indivíduos sofrem influências da sociedade de um modo geral, reflectem atitudes e expectativas, que se dão pelo nome de socialização, dentro deste contexto, isto torna-se deveras complexo.