Este é um espaço sem complexos para reflectir sobre as misérias e alegrias de quem vive no subúrbio de grandes cidades, como é Lisboa - Portugal.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Solidão
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Já falou com o seu vizinho nos últimos dias?
Também pode parecer idiota para quem todos os dias perde horas nas filas de trânsito, nos transportes ou até mesmo no trabalho, porque há aquela tarefa urgente que há três meses atrás alguém se esqueceu de lhe delegar.
A vida na Suburbia tem estas idiossincrasias onde cada dia menos atenção se presta aos que nos rodeiam, a começar pelos próprios vizinhos, que em particular em grandes condomínios, são estranhos com que nos cruzamos no elevador, nas escadas ou o na reunião de condomínio uma vez por ano.
Pois atentem na noticia bizarra que surgiu na edição online do Jornal Sol de 16/Maio/2008, e que transcrevo.
Mulher morreu há 35 anos e ninguém deu pela sua faltaEm Portugal, ainda temos muito o culto da bisbilhotice da vida alheia, por isso, ainda é pouco provável que episódios destes aconteçam, mas isto demonstra o grau de alienação da vida em sociedade para que caminhamos, se algo não for feito por cada um de nós para o evitar.
Os governos mudaram. Uma guerra começou e chegou ao fim. Os vizinhos tiveram filhos e depois netos. Mas Hedviga Golik nunca deixou o seu pequeno apartamento em Zagreb, Croácia, até que o seu corpo já mumificado foi descoberto 35 anos após a sua morte.A polícia afirmou que ninguém a tinha dado como desaparecida e que o corpo continua por reclamar.
Os moradores do prédio de Hedviga, na baixa da capital croata, decidiram entrar em sua casa por considerarem que o apartamento lhes devia pertencer a eles e não a Hedviga. Quando entraram viram o corpo deitado na cama. Assustados chamaram a polícia.
Os peritos calculam que a mulher deve ter morrido em 1973, altura que coincide com a última vez que foi vista por uma das vizinhas. Davor Strinovic, um dos criminalistas, afirmou que a causa da morte parece ter sido natural, mas «é quase impossível afirmá-lo com certeza» após tanto tempo.
Alguns dos vizinhos disseram que Hedviga tinha falado em ir para o estrangeiro, o que parece explicar a razão pela qual ninguém deu pela sua falta.
Segundo os criminalistas, o mau cheiro, característico dos cadáveres, foi dissipado pelas janelas que permaneceram abertas durante este tempo. Não se sabe ainda ao certo se alguém ou quem pagava as contas de Hedviga e a quem pertencia, realmente, a casa. Em 1973, os apartamentos pertenciam ao Estado.
Os vizinhos querem agora que o apartamento seja partilhado pelos restantes inquilinos.
A descoberta do cadáver de 35 anos trouxe o debate para os media: «Como é possível que uma mulher tenha morrido há tanto tempo sem que ninguém tivesse dado pela sua falta?». Uma jornalista local afirmou que era a prova da crescente alienação das pessoas.
«Meus queridos vizinhos! Por favor continuem a ser curiosos e às vezes incómodos, como têm sido até agora»,escreveu a jornalista Merita Arslani no jornal Jutarnji.
Não é preciso bisbilhotar, querer saber tudo sobre os vizinhos, os que nos rodeiam, mas tentemos conhecer um pouco melhor as pessoas que convivem connosco e que partilham um pouco das nossas vidas. Quem sabe isso não ajuda a tornar a convivência um pouco menos penosa e consigamos ultrapassar aqueles conflitos que habitualmente surgem entre vizinhos.
Com o envelhecimento da população portuguesa e por arrasto, da Suburbia, há cada vez mais pessoas sós, abandonadas, cuja ligação com a realidade passa apenas por uma conversa de ocasião com um vizinho, pois até a família se esqueceu dela.
Não há nada mais triste e até desumano do que um ser humano abandonado, só e esquecido no meio de uma multidão. Não se esqueça disso, pois um dia pode ser você na mesma situação!
sexta-feira, 15 de junho de 2007
Solidão das multidões
No entanto, cada vez mais os suburbanos sofrem de um mal que vai matando aos poucos a capacidade de cada um se relacionar com os outros: a imensa solidão que a maioria sente nesses grandes espaços públicos.
A solidão urbana é fria, indiferente a sexo, raça, extracto social ou credo religioso. Esta solidão é alimentada por um ritmo de vida alucinante, em que cada um vive para cumprir um horário feito para super-homens ou para dias de 48h. É neste ambiente de loucura que ainda se tenta encontrar um amigo ou amiga, uma ou mais almas com quem se pode compartilhar momentos de prazer e descontracção.
É também neste ambiente que as relações intimas tentam sobreviver quando ele trabalha das 9 às 21 e ainda é roubado pelos colegas para ir para aquele jantar de negócios e ela trabalha das 9 às 21, mas depois vai ao ginásio para combater o stress, ou fica com aquela enxaqueca terrível depois de um dia terrível. Quando finalmente podem estar juntos, estão demasiado cansados para sentir o prazer de estar um com o outro.
Se a isto juntarem filhos ou outras ocupações tão tipicamente urbanas, o que resta? Apenas a solidão de uma cama fria ou de uma sala vazia, uma falta de intimidade com alguém que compense todos aqueles momentos mais desagradáveis em mais um dia no inferno da Suburbia.
Esta solidão das multidões é talvez o mais ignorado dos sentimentos da Suburbia, talvez porque toda a gente tenha vergonha de assumir que se sente sozinho no meio de uma multidão. Mas todos os dias, milhares e milhares de pessoas deslocam-se sozinhas na cidade, sozinhas com os seus pensamentos, medos, alegrias, ambições. Que bom seria se o pudessem partilhar com alguém! Quantas vezes não sentiram necessidade de contar a alguém algum evento e não tinham ninguém que o pudesse ouvir? Ao mesmo tempo quantos já não passaram por aqueles momentos confrangedores de alguém que não se conhece mete conversa só por que lhe apeteceu e ficamos a pensar: "Este não bate bem dos pirulitos..."
Mas agora chegou a maravilha da tecnologia que permite ultrapassar isso tudo: está sozinho e quer falar com alguém? Não incomode o seu vizinho, telefone para o seu amigo ou amiga que está a 200km de distância, para lhe falar sobre aquele assunto que no momento achou o mais importante da sua vida. Só que esta tecnologia na prática aumenta ainda mais a solidão, senão vejamos: quem não passou já pelo constrangimento de estar num almoço de amigos e 75% dos elementos na mesa estão ao telemóvel com alguém?
É por crescer este tipo de solidão que cada dia mais a sociedade, e em particular as moles urbanas estão cada vez mais descaracterizadas, tristes, amorfas, sem vida, pois está a perder-se a capacidade de comunicar com os outros de forma espontânea. Para compensar isso, criam-se as comunidades virtuais e outros estratagemas tecnológicos para reinventar o puro prazer de estar com os outros.
Não vou sugerir que agora desate a falar com aquele grupinho que vai de Metro consigo ou meta conversa com o vizinho da fila de trânsito, mas redescubra o prazer de conversar, estar com a família, os amigos e deixe lá o telemóvel em silêncio por uns minutos. Vai ver que o telemóvel não se vai sentir só (por enquanto!).
E sorria, sorria com o verdadeiro prazer de viver. Vai ver que não dói e no fim do dia sentir-se-á menos só.
domingo, 24 de dezembro de 2006
Feliz Natal!
Mas caramba, pelo menos que haja 2 ou 3 dias por ano em que as pessoas se olhem nos olhos e desejem Boas Festas com um sorriso nos lábios, quando normalmente há apenas uma expressão carrancuda. Que haja pelo menos uma altura no ano em que realmente nos preocupemos um pouco mais com o próximo, em demonstrar (nem que seja de forma um pouco artificial) o quanto gostamos do outro, o quanto ele/ela significa para nós. Deveria ser assim todo o ano, mas a maldita vida agitada das cidades faz-nos esquecer de dizer a quem nos rodeia o quanto é importante a sua presença.
Talvez seja por isso que o Natal, sendo a época do ano da fraternidade, é também a época do ano onde a solidão é mais sentida, mais dura, onde quem se sente só, sente aquela amargura de não ter com quem partilhar este momento bonito que todos os anos se repete, e que sempre desejamos que seja Feliz Natal!!
Na imensidão de gente que divaga pelas catedrais do consumo, há os que se sentem compelidos a comprar, mas imensamente sós, porque apenas estão a dar-se "mais uma prenda". Nas cidades, cada dia mais descaracterizadas, isso é que cada dia mais real. Cada dia há mais pessoas sós, fechadas no seu Mundo, que se torna avassaladoramente imenso neste data, em que todos estão longe, muito longe ou então se esqueceram que essa pessoa existia.
Para mim esta época acaba por ser deprimente, pois sinto a solidão sorrateiramente a apoderar-se de mim, apesar da presença confortante da família, das dezenas de mensagens de mail, SMS e afins que vou recebendo, algumas delas de pessoas que já nem sabia se estavam vivas ou não! Mas e quando não estiverem lá?!?
Mas o Natal é também uma época de reflexão, e por isso, estas palavras são tão pouco felizes mas sentidas... Seja como for, a todos um Santo e Feliz Natal, e que da solidão das suas almas, se juntem com todos os que os rodeiam e façam uma pequena comunidade mais feliz, nem que seja por um dia!
FELIZ NATAL!